text by Mário de Andrade in the Revista da Academia Paulista de Letras.
"A palavra 'primitivo' tem sido tecnicamente aplicada para designar um estágio mental humano. Salta aos olhos, diante desta terminologia técnica, universalmente aceita, a leviandade, o confucionismo de outro conceito dado em nossos dias à palavra, designando com ela as orientações estéticas que usam processos primários de expressão artística, encontrados nos povos primitivos. [...] Não se trata de forma alguma de um estágio, mas de uma atitude mental. Os primeiros cubistas, por 1908 e 9, que adotaram nas suas obras as diferenças e os caracteres da arte negra, chamar-lhes 'primitivos' por isso, é da maior leviandade." (p.23)
"A palavra ainda é empregada para designar os outros mais legítimos primitivos: o homem pré-histórico, o homem das civilizações naturais e a criança. Agora sim, estamos diante de três conceitos técnicos bem mais defensáveis. [...] A criança será um primitivo, se quiserem. É comum afirmar-se que cada ser realiza em si o ciclo mental completo da humanidade. Neste caso, a criança estaria em identidade de estágio mental com o primitivo pré-histórico e o homem natural. Esta doutrina, confesso que não me seduz muito, apesar da sua comodidade. Que o estágio mental infantil seja primário, não tem dúvida, porém essa prioridade só existe em relação ao que essa mesma criança virá a ser quando crescida." (p. 24)
Mário de Andrade criticizes Luquet and his parallelisms of the child and the primitive, because the child, he argues, is subjected to several influences since she was born.
"De resto, todos os paralelismos (e não são tão numerosos assim...), todas as coincidências se baseiam, a meu ver, numa grave confusão nossa. Confusão que toma o ponto de partida de quaisquer comparações fundamentalmente errado. Nós falamos em 'arte', e 'manifestação artística', ao nos referirmos ao desenho ou à cantarola da criança pré-escolar. Com que direito?! (p. 26).
"A mim parece-me que é confundir alhos com bugalhos. O desenho infantil pré-escolar é manifestação já artística? De forma alguma. Não se trata especialmente do gasto de uma atividade supérflua, simplesmente porque, afora das necessidades fisiológicas, comer, dormir, toda atividade infantil é igualmente// supérflua. Ou melhor, são todas elas a mesma necissidade de agir, de simplesmente agir. Tudo na criança se confunde em 'jogo', no sentido spenceriano da palavra. De forma que, por este lado, não é possível qualificar-se de 'atividade artística' o desenho infantil pré-escolar.
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text by Mário de Andrade in the Revista da Academia Paulista de Letras.
"A palavra 'primitivo' tem sido tecnicamente aplicada para designar um estágio mental humano. Salta aos olhos, diante desta terminologia técnica, universalmente aceita, a leviandade, o confucionismo de outro conceito dado em nossos dias à palavra, designando com ela as orientações estéticas que usam processos primários de expressão artística, encontrados nos povos primitivos. [...] Não se trata de forma alguma de um estágio, mas de uma atitude mental. Os primeiros cubistas, por 1908 e 9, que adotaram nas suas obras as diferenças e os caracteres da arte negra, chamar-lhes 'primitivos' por isso, é da maior leviandade." (p.23)
"A palavra ainda é empregada para designar os outros mais legítimos primitivos: o homem pré-histórico, o homem das civilizações naturais e a criança. Agora sim, estamos diante de três conceitos técnicos bem mais defensáveis. [...] A criança será um primitivo, se quiserem. É comum afirmar-se que cada ser realiza em si o ciclo mental completo da humanidade. Neste caso, a criança estaria em identidade de estágio mental com o primitivo pré-histórico e o homem natural. Esta doutrina, confesso que não me seduz muito, apesar da sua comodidade. Que o estágio mental infantil seja primário, não tem dúvida, porém essa prioridade só existe em relação ao que essa mesma criança virá a ser quando crescida." (p. 24)
Mário de Andrade criticizes Luquet and his parallelisms of the child and the primitive, because the child, he argues, is subjected to several influences since she was born.
"De resto, todos os paralelismos (e não são tão numerosos assim...), todas as coincidências se baseiam, a meu ver, numa grave confusão nossa. Confusão que toma o ponto de partida de quaisquer comparações fundamentalmente errado. Nós falamos em 'arte', e 'manifestação artística', ao nos referirmos ao desenho ou à cantarola da criança pré-escolar. Com que direito?! (p. 26).
"A mim parece-me que é confundir alhos com bugalhos. O desenho infantil pré-escolar é manifestação já artística? De forma alguma. Não se trata especialmente do gasto de uma atividade supérflua, simplesmente porque, afora das necessidades fisiológicas, comer, dormir, toda atividade infantil é igualmente// supérflua. Ou melhor, são todas elas a mesma necissidade de agir, de simplesmente agir. Tudo na criança se confunde em 'jogo', no sentido spenceriano da palavra. De forma que, por este lado, não é possível qualificar-se de 'atividade artística' o desenho infantil pré-escolar.